| 05/07/2010 
Sobrevivente do Bumba ganha R$ 100 mil em loteria do Rio
Sobrevivente de uma das maiores tragédias de Niterói, na região metropolitana do Rio, a vendedora Ana Paula Gomes dos Santos Pereira, 33 anos, viu parte de sua vida ser enterrada no deslizamento do Morro do Bumba, em 7 de abril. Além de perder vários amigos, sua casa foi interditada e será demolida. Um mês e 23 dias depois, porém, suas esperanças reacenderam num bilhete de loteria. Com apenas R$ 2,50, ela faturou R$ 100 mil. Era o que faltava para a família retomar o sonho de construir o futuro.
"Tinha certeza de que ia ganhar, sempre fui sortuda para prêmios. É o meu pensamento positivo", diz a vendedora. Mãe solteira de um jovem de 17 anos e de uma menina de 10, Ana Paula ainda mora no topo do Bumba, no bairro Viçoso Jardim. A casa fica a cerca de 50 m do ponto onde a enxurrada de lama derrubou dezenas de moradias e desabrigou 1,3 mil pessoas. Ela conhecia a maioria dos 47 mortos. O filho, Paulo, resgatou vizinhos.
Sem ter para onde ir, a família resistiu a sair da casa, apesar do local estar interditado. Quando soube da demolição, ficou desnorteada e recorreu à sorte. Comprou dois bilhetes a R$ 2,50 cada e, no sorteio de 30 de maio, abocanhou o prêmio principal.
"Estava numa reunião da associação de vítimas do morro quando uma vizinha chegou dizendo que ouviu meu nome na televisão. Quase desmaiei", afirma ela, que sempre jogava nessa loteria e, no ano passado, já tivera prova da sorte: um bilhete que comprou e deu ao pai de Paulo rendeu o prêmio de R$ 5 mil e um laptop.
Vendedora numa loja de artigos religiosos no centro de Niterói, onde ganha pouco mais de um salário mínimo, Ana tem certeza de que a fé ajudou. Que o digam as preces diante das imagens de Nossa Senhora Aparecida e Ogum, expostas na vitrine.
Com os R$ 100 mil na conta, os planos estão na ponta da caneta: R$ 19 mil pagaram dívidas, e o restante está na poupança para comprar a casa própria. Ana Paula não saiu da favela porque procura dois imóveis vizinhos - para ela e os filhos e outro para a mãe, de 65 anos, cuja casa também foi interditada.
Depois, ela pensa em abrir uma empresa de bufê com uma amiga. Ela quer estudar inglês e colocar o filho no pré-vestibular, ele sonha fazer Educação Física.
Com dinheiro sobrando, vizinhos até já brincam que devem chover pretendentes. Mas o coração de Ana Paula já tem dono. "Meu namorado quer casar, mas ainda não sei", diz.
Tragédia
Para muitas famílias, a tragédia no Bumba não acabou. Ao menos nove corpos ainda estariam soterrados. Oitocentas pessoas que esperam os R$ 400 do aluguel social permanecem alojadas em quartéis do Exército em Niterói e São Gonçalo. Os imóveis que restaram na favela foram interditados e devem ser demolidos, mas muitos habitantes continuam lá.
"Eles não têm para onde ir. Esperamos a Defensoria Pública entrar com ação contra a prefeitura para exigir indenizações", diz o presidente da associação de vítimas, Francisco Pereira. Por suspeita de omissão, o prefeito Jorge Roberto Silveira e o secretário de Serviços Públicos, José Roberto Mocarzel, são investigados pelo Ministério Público.
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